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  1. Ruby

    Um dia, o clarão invade a sala,

    e você pensa num fogo ou

    juízo final. Mas é apenas o

    silêncio, o seu silêncio que

    queima, corrói e tritura, pra

    depois vir um alívio sensato,

    sincera vontade de viver.

    Bebo um rubi com água,

    como se fosse um comprimido

    qualquer, pra alguma coisa.

    Ou ponho num pedestal uma

    aspirina vulgar, como se fosse

    pedra preciosa. Não sei. Mas sei

    que pouco importa. Já chegou a

    hora de partir, o trem me espera.

    Em minha mala, nenhum peso-morto,

    nada que eu não saiba que terei de usar.

    E a tarde vem tranquila, a noite cai e, talvez,

    amanhã eu a veja de novo. Ou por anos, enfim.

    André Rivail Medrado

  2. Eva (a traidora)

    Foste-me a

    primeira vez.

    …..

    Dou-lhe uma,

    Dou-lhe duas,

    Dou-lhe três,

    e descobri.

    …..

    Esgueirando-se,

    diz: ‘não é o que

    você vê. É o que

    me faz estar aqui’.

    …..

    André Rivail Medrado

  3. Euríale (a perversa)

    'Louca, sobretudo

    por você’ - dizia.

    …..

    Entregou-se,

    Revelou-se,

    Completou-me

    e partiu.

    …..

    Restou-me o

    parto, ou a dor

    da despedida que não

    houve, e não tem fim.

    …..

    André Rivail Medrado

  4. Esteno (a opressora)

    Doce aquele beijo.

    Qui-los todos.

    …..

    Sufoquei-me,

    Fustiguei-me,

    Humilhei-me

    e adoeci.

    …..

    Em teu peito

    recostei. Mas com

    uma chave de braço,

    quebraste-me o pescoço.

    …..

    André Rivail Medrado

  5. Medusa (a impetuosa)

    Linda, à distância.

    Costa aberta.

    …..

    Jogarás.

    Amarás.

    Rogarás.

    Matarás.

    …..

    Olho-te nos olhos:

    Faça-me pedra!

    Prefiro ser lápide

    de minha ilusão.

    …..

    André Rivail Medrado

  6. Lady Lilith

    Praga,

    Bela e rebelde.

    …..

    Traga-me,

    Dispa-me,

    Suga-me,

    Arruína-me.

    …..

    Eu ordeno:

    De amor,

    Mata-me agora,

    Ou mato-lhe eu.

    …..

    André Rivail Medrado

  7. Infância (IV)

    O que pensaria?

    Ou o que pensava?

    Se é que pensava,

    Se é que entendia,

    A própria desgraça.

    …..

    Em roupas da xuxa,

    Sandálias d’angélica,

    Os pés ritmados,

    Dançando, incansados,

    Um som da moléstia.

    …..

    Será que entendia?

    Será que parava e

    Olhava pros lados,

    Meio encabulada,

    Criança abusada?

    …..

    Pois, bem, não seria

    Abusada a menina,

    Que assim dançava,

    Como se já moça,

    Sorrindo, assanhada?

    …..

    E será que pesavam,

    Os olhos dos outros,

    Que não desgrudavam,

    Do corpo, impróprio

    Pra um show horroroso?

    …..

    Será que tem pais?

    Se tem, onde estão?

    Ausentes, distantes,

    Ou ignorantes,

    Perderam a razão?

    …..

    Será que há país,

    Ou dignidade, ou

    Um anjo piedoso

    Que a tire do palco

    Para a eternidade?

    …..

    O que pensaria

    A débil criança,

    Tão cheia de vida,

    Na dança macabra

    Que a tia ensinara?

    …..

    Não! Nada entendia,

    Nem nada pensava,

    De tanto suando,

    De encontro à

    Boquinha de

    Uma garrafa.

    …..

    André Rivail Medrado

  8. Sobre a sexualização da infância

    Não acho que haja muito mais a falar sobre isso. Uma amiga outro dia me comentava sobre a dificuldade que tem enfrentado para, em algumas lojas de roupas infantis, encontrar roupas adequadas ao mundo infantil. São saias e camisetas curtas demais e acessórios inspirados em moda adulta (como os sutiãs para crianças com bojo, a respeito dos quais publiquei aqui outro dia). Sei que corro o risco de ser tachado de careta ou moralista, mas não estou nem aí. O auto-respeito dessas crianças se constrói desde cedo. E estou convencido de que todos nós, adultos, sempre seremos, de alguma forma, responsáveis por evitar que meninas dancem na boquinha da garrafa. Forte abraço e ótimo domingo, my fellows!

  9. Infância (III)

    Chá no bule,

    Dá-me um gole:

    Gula, gula

    Bole, bole.

    …..

    Chá no bule,

    De panela:

    Pato, chato,

    Bruxa velha.

    …..

    Chá no bule,

    de cadeira:

    Bolo fofo,

    gorda, vesga.

    …..

    Chá no bule,

    do bebê:

    O escolhido

    Foi-vo-cê!

    …..

    André Rivail Medrado

  10. Uma pequena reflexão sobre o bullying

    A ingenuidade da infância vem sendo, cada vez mais, violentada pela competitividade típica do mundo adulto. Sempre existiu, entre as crianças, algo parecido com o que hoje denominamos bullying. Mas não podemos negar que, em um mundo marcado pela ideia de sucesso social e pelas exigências do corpo perfeito, da popularidade e do acesso a bens materiais, é natural que as crianças passem a reproduzir preconceitos e violências assimilados a partir de programas de TV (inclusive desenhos animados), da publicidade e até do comportamento dos pais e familiares.

    Estou convencido de que, para vencer o bullying, devemos combatê-lo não apenas entre as crianças mas, principalmente, no mundo adulto. Em muitos âmbitos (inclusive em sala de aula) tenho notado atitudes que poderiam ser facilmente identificadas como bullying sendo aceitas como meras brincadeiras, pois, afinal, os adultos devem saber se defender. Mas é esse tipo de tolerância que faz com que as crianças aprendam a banalizar a violência física e psicológica e praticá-las como se se tratasse apenas de brincadeiras, sem qualquer maldade.

    Escrevi uma poesia no formato daquelas cantigas de roda, comuns na infância de muitos de nós. Chama-se “Infância III” e é uma singela contribuição à reflexão sobre esse tema tão complexo e atual. Publicarei em meu próximo post. Espero que gostem!